terça-feira, 5 de junho de 2012

Resenha : filme/documentário Jango.


"JANGO"

 por Laerte Moreira dos Santos


O filme documentário "Jango" é de 1984 com produção e direção do cineasta Silvio Tendler.

Em apresentação deste documentário feita pela redação do Jornal "Folha de São Paulo", por ocasião da participação deste no Ciclo "1964:30 anos", lemos em artigo de 31 de março de 1994: "Realizado na época da campanha pelas eleições diretas para presidente, em 1984, "Jango" faz uma retrospectiva do governo João Goulart e dos acontecimentos que precederam sua deposição pelo golpe de 31 de março de 1964. Apesar do título, o filme escapa de um registro meramente personalista em torno da figura de João Goulart, aproveitando o momento político de sua realização para fazer um discurso sobre a volta da democracia. Tendler não se limita, na montagem dos documentos, ao golpe em si. Utiliza-se da personalidade de Jango como um pretexto para inserir uma colagem de imagens históricas do regime militar. A repressão às passeatas após 68 e o período de terror que marcaram o governo Médici são o ponto forte do filme. A brutalidade da imagens até então não havia sido livremente explorada pelo cinema brasileiro. Mesmo passados dez anos desde o fim do regime militar, as cenas do documentário ainda mantêm seu impacto...."

A frase destacada por mim se tornará o ponto de partida para a elaboração desta resenha.
A afirmação de que o registro da figura do ex-presidente João Goulart é apenas um pretexto para uma abordagem do contexto histórico do golpe de 64, é, a meu ver, passível de questionamentos.
Passa a idéia de que tal registro seria no documentário algo secundário. O principal no documentário seria o contexto do Golpe de 64.

Se é verdade que o documentário não pretende um registro "meramente personalista da figura de João Goulart", por outro lado, nas palavras do próprio Silvio Tendler (Folhetim, nº 376, p. 8 – Jornal "Folha de São Paulo", sem data), o objetivo era o de "mostrar a necessidade de um projeto político, econômico e social que contemplasse o lado de justiça social". E para este cineasta "este projeto estava no resgate da figura de João Goulart".
Ou seja, fica claro que a figura de Jango no filme vai estar vinculada intrinsecamente à interpretação que o cineasta pretende dar ao contexto histórico do golpe de 64 e, portanto, não é mero pretexto nem algo secundário.
 Em um primeiro momento poderíamos concluir que Silvio Tendler estaria evidenciando com esta sua afirmação a carga de subjetividade, de interpretação pessoal, presente em todo filme documentário. Afinal a possibilidade da vinculação da figura de Jango com um projeto, vamos chamar assim, social-democrata, é uma entre outras possibilidades. Há outras visões sobre o governo João Goulart. Por exemplo o intelectual Paulo Schilling tem a seguinte avaliação: "Foi o mais eficiente agente das classes dominantes e do imperialismo na contenção do avanço popular. De traição em traição chegou a entrega do poder para a direita."

Sem ainda nos reportar ao filme, mas iniciando um processo de crítica, questionamos, outrossim, a palavra "resgate" no contexto desta afirmação.

Esta palavra passa a idéia de que determinados fatos históricos comprovariam a vinculação da figura de Jango com um projeto político social-democrata. Caberia a Silvio Tendler resgatá-los, ou seja, trazer à tona a "verdade dos fatos" até para fazer justiça a figura de Jango. Subjaz a idéia de que não se trata de interpretação mas de objetividade dos fatos.
 Agora, continuando a nossa resenha tendo em conta o que nos é passado pelo documentário, constatamos que nosso cineasta consegue fazer esta vinculação com competência. Revela um grande domínio da técnica desta forma de fazer cinema e da linguagem cinematográfica.
 Tenta nos convencer, e acredito que consegue este convencimento com uma grande parte do público que assiste e assistiu este documentário, tenta nos convencer que o que é projetado é realmente expressão fidedigna dos fatos históricos acontecidos. Que a sua interpretação é a própria realidade. E consegue isto não somente através da voz do locutor com um discurso apoiado em fontes bibliográficas simpáticas ao governo Jango ou depoimentos de cientistas sociais ou de pessoas participantes deste contexto histórico. Usa também e com maestria todo a aparato cinematográfico. E este é um elemento fundamental para nos seduzir.
 E este momento da resenha, permito-me uma pequena digressão a respeito desta sedução provocada pelo aparato cinematográfico.
 Sabemos, e não é de hoje, que "os fatos não falam por si mesmos, é necessário interpretá-los", ou seja, o que chamamos de real é carregado de subjetividade devido ao fato que a realidade é sempre interpretada. Disto não escapa o documentário que mais do que reproduzir a realidade, a constrói.
 Mas o interessante é que, apesar de sabemos disto, somos constantemente seduzidos pela linguagem e pelo aparato cinematográfico que estão presentes também nos documentários.
Todo o contexto para a projeção de um filme: a sala escura, a tela grande, o silêncio, recursos como a música que tenta nos seduzir pela emoção, pelo sentimento, sem contar a própria forma como o filme é montado, tudo isto colabora para diluir o grau de criticidade de nosso olhar e nos conformarmos ao olhar do diretor do filme.
 Se concordarmos totalmente com a análise do caráter do cinema feito por Jean-Louis Baudry, na década de 70, pois ela nos levaria a um beco sem saída, diríamos com ele que, apesar da ilusão que temos de sobrevôo, de pairar com a nossa consciência crítica acima dos aparatos técnicos e do contexto envolvente, na verdade somos
conduzidos por eles. Eles monitoram a nossa fantasia.
 Talvez por isto seja tão difícil a distância crítica necessária.
 Mas se há a dominação não acreditamos que seja total (e aí a minha posição se diferencia da de Baudry). Concordo com Ismail Xavier quando no texto "cinema: Revelação e Engano" (Do Livro "O Olhar", vários autores, Cia de Letras, 1988, São Paulo) afirma: "o olhar fabricado é constante oferta de pontos de vista". Se observamos "com ele o mundo", devemos "colocá-lo também em foco, recusando a condição de total identificação com o aparato".
 Enxergar mais é estar atento ao visível e também ao que, fora do campo, torna visível. (grifo meu).
 Por mais que um diretor tente nos conformar à sua visão, a passividade não é total. Há espaço para uma releitura.
Esta expressão "enxergar mais" nos revela que o real é mais complexo. Se damos conta do real através de uma relação dialética entre o sujeito do conhecimento e o objeto de conhecimento, na prática acontece muitas vezes o reducionismo. Ou seja, terminamos por amordaçar a realidade, aprisionando-a com as nossas interpretações, com nossas categorias racionais, que sempre tem características sistemáticas, articulações lógicas que aparentemente dão conta do real na sua plenitude.
 Talvez esta seja a herança negativa do pensamento cartesiano que reduz o real à pura extensão. Para Descartes que considerava como critério de verdade a "clareza e distinção" não seria possível dar conta da verdade do mundo físico a não ser a partir da categoria matemática "extensão", idéia clara e distinta. Ou seja o real era empobrecido.
 Se é verdade que não reduzimos realidade à pura extensão, a perspectiva reducionista está muitas vezes presentes no processo de desvendamento da realidade.
 O preço disto é a eliminação de determinados elementos que fazem parte do real e que poderiam dar um grau de complexidade não suportada por nossa moldura intelectual reducionista.
 Mas se não é possível nos libertarmos totalmente desta postura reducionista, por outro lado é possível atenuar o aprisionamento do real, consequência do nosso reducionismo interpretativo, uma verdadeira camisa de força. É claro que não queremos significar que o real se manifesta por si mesmo, mas que é possível abrir espaço para outras interpretações possíveis que nunca, é claro, o esgotarão.
 Por isso, voltando à questão do documentário, ouso erigir um critério para medir a qualidade de um documentário do ponto de vista da verdade: "ele se valoriza quando mostra e faz pensar, mais do que quando define ou explica". (Apostila "Documentários: Histórica, crítica e processo de Produção" para Curso de "Cinema e Documentário" – de 28/08 a 13/11 – pág. 13)
 Se este critério é válido para o produtor, para o telespectador crítico, concordando ainda com Ismail Xavier, o reducionismo vai ser atenuado, vamos "enxergar mais" se estivermos atentos ao que "fora do campo torna visível". Ou seja (se interpreto bem a afirmação de Ismail), é naquilo que não é dito, naquilo que fica oculto, é que eu vou poder "enxergar mais".

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Estes critérios vão nos inspirar a partir de agora na continuidade de nossa resenha agora voltada para a análise do filme em si.

Como já afirmamos anteriormente desde o início do documentário Tendler consegue envolver o telespectador induzindo-o a se conformar ao seu olhar, ou seja, a ter uma imagem positiva da figura de Jango. E não apenas de João Goulart. As referência a JK e Getúlio Vargas, presidentes que o precederam, são altamente elogiosas. Tiveram um projeto altamente positivo com preocupação social que é continuado por Jango. Jango é o herdeiro de um projeto político com preocupação social iniciado por Getúlio Vargas.
 A competência de Silvio Tendler no uso do aparato cinematográfica é digna de elogios. Logo no início do filme a música de Milton Nascimento e Wagner Tiso, acompanhada por fotos de João Goulart, sempre sorridente, prepara o nosso espírito para a adesão, mexe com as nossas emoções, com os nossos sentimentos. Esta música triste, suave, com a formidável voz de Milton, nos enleva, nos toca. Prepara-nos para o que virá, ou seja, uma adesão completa à perspectiva do diretor que é de passar uma imagem positiva do governo João Goulart.
 Este perfil positivo é destacado em outras partes do filme principalmente nas cenas já bem próximas do golpe e posteriores. Nestas cenas não somente a música mas a montagem, como por exemplo, a alternância de cenas do "Encouraçado Potemkim" com cenas da revolta dos Marujos ou fotos de João Goulart durante o chamado "Comício da Central" dão um ar de dramaticidade que nos envolvem definitivamente.
 A imagem de Jango como grande estadista já é destacada mesmo antes de assumir a presidência na sua viagem a URSS. Mas mais do que isto estas cenas da viagem querem nos fazer acreditar que Jango, em nome do interesse maior da nação, já se colocava contra os interesses imperialistas das nações capitalistas ocidentais (principalmente os Estados Unidos), desenvolvendo uma política externa independente.
 Tendler é competente para nos mostrar um presidente sempre equilibrado, disposto ao sacrifício pessoal ao invés do sacrifício da nação, sempre colocando o interesse da nação acima de tudo, com uma ação sempre marcada pela preocupação com a justiça social, com o bem estar dos mais pobres, que se expressou, principalmente, pelas tentativas de implementar as reformas de base.
 Mesmo quando pune determinadas pessoas como lideranças da revolta dos marujos ou quando decreta o Estado de Sítio, sempre é em nome da nação, tem o fim de salvaguardar um projeto político que propõe um capitalismo menos selvagem.
 Os depoimentos tem um papel chave neste documentário. Aliás em todos documentários. Dão a chancela necessária para o grau de verdade dos fatos apresentados.
Vão comprovar não somente que Jango tinha uma preocupação com a justiça social mas tinha apoio popular.
Ao lado de depoimentos de participantes do golpe que criticam o governo João Goulart, há também os depoimentos daqueles do campo progressista e de esquerda que reforçam a imagem positiva do governo Jango mesmo que não se refiram diretamente a ele.
É difícil não concordar os depoimentos favoráveis a Jango mesmo contrapondo-os aos depoimentos desfavoráveis como o do Gen. Muricy, participante e apoiador do Golpe de 64. Estes últimos visam, justamente, reforçar a visão positiva na medida em que se constituem como contraponto negativo.
Mas, apesar deste envolvimento, é possível como em todo documentário ter uma postura crítica, "enxergar mais" através do que não é dito.
À primeira vista temos a impressão de que Silvio Tendler "mostra e faz pensar" ao entrevistar pessoas a favor e contra o governo Jango. Porém os que se colocaram contra este governo estão ligados direta ou indiretamente ao projeto da ditadura militar que é claramente caracterizada durante o filme como antidemocrático, violento, vinculado aos interesses da classe dominante, do imperialismo norte americano, impeditivo de uma participação política do povo. De outro lado, depoimentos de pessoas que, mesmo quando não fazem nenhuma referência elogiosa a Jango, reforçam a imagem positiva passada por Tendler.
Damos exemplos: Francisco Julião, ex-dirigente das ligas camponesa, afirma em seu depoimento que Jango defendia as reformas de base como a reforma Agrária, Reforma Urbana e Reforma tributária. O seu governo deu espaço para a participação popular. Aldo Arantes, ex-dirigente estudantil, e também Gregório Bezerra além de destacarem de forma positiva as reformas de base do governo Jango, chamam atenção para o clima democrático garantido por este governo que favorecia a organização popular.
Mas sabemos que no campo progressista e de esquerda não havia e até hoje não há a unanimidade em relação ao governo Jango. Já exemplificamos com a interpretação de Paulo Schilling.
 Fica então claramente evidenciada a parcialidade, o caráter ideológico deste documentário. Apresenta para nós uma única interpretação como se ela se identificasse com a objetividade dos fatos. Não são apresentados depoimentos de pessoas situadas no campo progressista e de esquerda com uma visão crítica e diferenciada sobre o Governo João Goulart.
 Aliás, me pareceu que há uma crítica a um setor de esquerda que com o seu suposto radicalismo impediu a consumação da democracia através de Jango (subjaz aí, talvez, a visão do PCB, que entendia a democracia no Brasil, mesmo sendo burguesa, como uma etapa necessária para o advento do Socialismo).
 Por isto este documentário não nos ajuda a entender os conflitos deste tempo na sua complexidade. Não estamos diante do real que por sua própria natureza é polissêmico e complexo mas com a construção de um real com um único significado e extremamente simplificado. O reducionismo cartesiano está aqui presente.
 As divergências não se manifestam nem em relação a fatos e atos comprovadamente polêmicos como a decretação do Estado de Sítio, Comício da Central, Plano Trienal. Se é verdade que Silvio Tendler revela, por exemplo, a oposição da CGT (Central Geral de Trabalhadores) ao Plano Trienal entendendo-o como prejudicial aos trabalhadores, a revela para afirmar que foi uma posição equivocada que somente ajudou aqueles interessados na desestabilização do Governo. Novamente a voz pausada do locutor traz a tona a explicação verdadeira dos fatos.
 Em todo caso continuamos sem nenhum depoimento de pessoa do campo progressista e de esquerda com críticas a estes atos e fatos. Quem avalia, por exemplo, o Plano Trienal é Celso Furtado, ex-ministro de Planejamento de João Goulart e idealizador do plano. No caso da Decretação de sítio, dá o sua versão um ex-lider do PTB na câmara (Bocayuva) (partido de Jango). Na sua versão esta proposta do governo como outras propostas e atos tinham o sentido de salvaguardar este projeto social-democrata. Segundo a sua versão, não tinha nenhum elemento que atentasse contra os direitos fundamentais. E se não foi aprovado pelo PTB (Partido de Janto) foi justamente porque a direita propôs emendas que o desfigurariam inserindo itens que atentariam contra direitos fundamentais e que acabariam por prejudicar os trabalhadores. Então temos PTB e o próprio governo unidos na rejeição de uma proposta deste mesmo governo em nome de valores democráticos. Para muitos do que assistem este documentário esta atitude é uma das confirmações do apreço que Jango tinha por estes valores. A democracia pesou mais que a segurança.
 No caso do "Comício da Central" o depoimento é de Raul Riff, ex-secretário de imprensa de Jango, e sempre como reforço à imagem positiva de João Goulart. Chega até a afirmar que Jango foi aconselhado a não realizar este comício mas resolveu assumi-lo. Fica evidenciada, portanto, mais uma virtude de Jango: a coragem.
 Por isso, concordamos com Jean-Claude Bernardet e Alcides Freire Ramos quando afirmam em seu livro "Cinema e História do Brasil" à pág. 45: "o filme Jango está informado pela visão oferecida pelos agrupamentos de esquerda que mais apoio deram ao governo: o PTB e o PCB. O filme faz com que a visão destes grupos apareça como a mais válida sobre o tema (as opiniões contrárias ao governo oferecidas pelos militares funcionam como reforço da visão do PTB, do PCB e do filme)."
 E concluímos esta resenha afirmando que o documentário Jango mostra mas "não faz pensar". Diferentemente de outros documentários como o de Eduardo Coutinho que possibilita espaço para os diversos sujeitos com suas visões diferenciadas, deixando explícito que o real é sempre construído, o real é sempre fruto de interpretações dos sujeitos que tentam desvendá-lo. Enfim, que o real é sempre construído dentro de limites e possibilidades, é sempre muito humano, carrega as suas marcas
  
.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 1.Ramos, Freire Alcides e Bernardet, Jean Claude. Cinema e História do Brasil. São Paulo, Editora Contexto e Editora da Universidade de São Paulo,1988.
 2. Vários autores. O Olhar. (texto de Ismail Xavier: "Cinema: Revelação e Engano"). Cia de Letras, São Paulo, 1988.
 3. Apostila do Curso "Cinema e Documentários": "História, crítica e processo de Produção". Mnemocine - Ensino e Pesquisa, 1999.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Artigo de Anita Prestes sobre o filme/documentário "O Velho"


Uma estratégia da direita: Acabar com os "mitos" da esquerda.
(A propósito do filme documentário “O Velho - A História de Luiz Carlos Prestes”)*
Anita Leocadia Prestes
Doutora em Economia e História Social, professora de História do Brasil na UFRJ e autora dos livros A Coluna Prestes (Ed. Brasiliense,1991, 3ª ed.) e Os Militares e a Reação Republicana (As Origens do Tenentismo) (Ed. Vozes, 1994).






Se concordamos com Norberto Bobbio, quando ele afirma que “esquerda” e “direita” constituem a “grande divisão”, hoje “mais viva do  que nunca” na “história da luta política na Europa do último século” , temos um ponto de partida para tentar explicar as novas estratégias da direita atual. Visando defender de maneira mais eficaz os interesses dos setores sociais que representa - principalmente o grande capital internacionalizado -, a direita dos anos noventa apela para novos expedientes, mais adequados aos tempos de hoje, ou seja, ao período histórico caracterizado por Eric Hobsbawm como o fim de uma era e o início de outra. Vivemos um momento histórico, em que, dada a derrota sofrida pelo “socialismo real”, em particular no Leste europeu, os interesses do grande capital internacionalizado passaram a dominar o mundo de maneira indivisível, sem ter quem lhe possa oferecer uma resistência eficaz. Como é assinalado por James Petras, “o Ocidente está fazendo anexações e ocupações político-militares de longo prazo de uma forma nunca vista desde a era colonial”. Haja vista a Guerra do Golfo, em 1991, levada adiante contra o Iraque pelas grandes potências imperialistas. impor, em grande medida, sua hegemonia ideológica, através de meios de comunicação extremamente poderosos, eficientes e sofisticados, como a humanidade jamais, antes, conhecera. Seus “intelectuais orgânicos” - para usar o conceito proposto e teorizado por Antônio Gramsci - trabalham de maneira intensa, consciente ou inconscientemente, com o objetivo, em geral habilmente encoberto, de justificar os interesses do grande capital internacionalizado, ou seja das corporações multinacionais. A tão propalada “globalização”, sob a égide desse grande capital, é apresentada como o ápice do desenvolvimento humano, como a única alternativa possível para o século XXI.
Nesse mundo “pós-moderno”, para que a ordem dita néo-liberal possa ser mantida, evitando as sempre temidas convulsões sociais, é necessário, entre as muitas medidas a serem adotadas, visando a sua permanência e reprodução, sepultar os chamados “mitos” da esquerda. Trata-se, na verdade, de apagar, na memória de grande parte das pessoas, não só a crença num futuro de justiça social, no qual venham a imperar valores como a igualdade e a liberdade para milhões e milhões de homens e mulheres em nosso planeta, como também a admiração e o respeito cultivados por muitas dessas pessoas em relação àqueles que deram suas vidas ou contribuíram de maneira decisiva para que tais ideais se tornassem realidade.
Torna-se imperativo, pois, acabar com os heróis e com a exaltação de seus feitos e de suas vidas. O heroismo dos revolucionários, dos comunistas e dos antifascistas é batizado de “mito” para melhor poder
ser destruído. O exemplo daqueles que lutaram por um mundo melhor e mais justo é desqualificado com uma simples penada: afirma-se que seus propósitos foram derrotados e, portanto, sua luta teria sido inglória.[1] Às gerações atuais restaria conformar-se com a “globalização” e seus valores marcadamente “consumistas”. Podemos, hoje, observar duas táticas distintas de uma mesma estratégia desenvolvida pela direita, visando combater e destruir os supostos “mitos” da esquerda. Em contraposição aos velhos e
desgastados expedientes dos tempos da “guerra fria”, quando se acusava abertamente os comunistas de comerem criancinhas assadas na brasa e o regime soviético de “socializar” ou “coletivizar” as mulheres e acabar com a instituição da família, no momento atual, adota-se o silêncio a respeito de fatos, acontecimentos e pessoas, que se tornaram incômodos aos interesses dominantes, ou, quando
isso não é possível, recorre-se à descaracterização, ou melhor dito, à deturpação da história, visando torná-la aceitável a esses mesmos interesses dos grupos dominantes. O que, entretanto, não quer dizer que, em alguns momentos, os “intelectuais orgânicos” a serviço da direita não possam apelar aos velhos e surrados expedientes, sempre na tentativa desesperadora de sepultar “mitos” inconvenientes.
Neste último sentido, citarei apenas dois exemplos. Em 1991, ano marcado pelo simbolismo da “queda do muro de Berlim”, o conhecido jurista Saulo Ramos veio a público para lançar contra Luiz Carlos Prestes, já falecido e sem possiblidade, portanto, de defender-se, acusação inusitada e surpreendente: Prestes teria, em 1964, denunciado à polícia os nomes de inúmeros de seus companheiros e amigos.[2] Semelhante calúnia - desprovida de qualquer possibilidade de comprovação - não havia sido, até então, levantada sequer pelos mais ferrenhos inimigos de Prestes.
Dois anos depois, em 1993, o jornalista W. Waack afirmava, em seu livro Camaradas, que Prestes teria comprado seu ingresso na Internacional Comunista com o dinheiro recebido de Getúlio Vargas para realizar a Revolução de 30.[3] Outra calúnia, lançada sem nenhuma prova, a respeito de episódio que o próprio Prestes tornara público, durante seu julgamento no Superior Tribunal Militar, em setembro de 1937. Naquela oportunidade, ele demonstrara com documentos[4] que o dinheiro utilizado na preparação dos levantes de novembro de 35 não viera de Moscou, mas lhe fora entregue, em 1930, por Vargas, que o obtivera como resultado da venda à Light, pelo governador mineiro Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, de uma usina elétrica de Belo Horizonte. Prestes, ao romper com os “tenentes”, em maio de 30, e ao denunciar o caráter oligárquico e antipopular do movimento liderado por Vargas, decidira destinar
esses recursos à realização do que ele considerava a verdadeira revolução brasileira - a “revolução agrária e
antiimperialista”, defendida pelo Partido Comunista. A afirmação difamante de W. Waack, além de mentirosa, constitui uma deturpação grosseira das práticas vigentes na Internacional Comunista, pois é amplamente sabido que a escolha dos dirigentes dessa organização era feita de acordo com critérios de mérito revolucionário e jamais a partir de uma suposta “compra” de ingresso.
Tais exemplos de ataques diretos aos “mitos” da esquerda tendem, contudo, a tornarem-se menos frequentes. A tática do silêncio revelase aparentemente mais eficaz. Na Alemanha atual, pós queda do muro de Berlim, atinge proporções preocupantes a tendência, insistentemente promovida pela direita, de apagar a memória dos comunistas e antifascistas, a memória de todos aqueles que lutaram contra o fascismo, pela democracia e pelo socialismo. Semelhante processo é particularmente visível no território da antiga República Democrática Alemã, onde os heróis da luta revolucionária pelo socialismo e da resistência antinazista eram lembrados e cultuados. Hoje procura-se retirar seus nomes de ruas, praças, escolas e demais lugares públicos e instituições; fecham-se museus - antigos campos de concentração -, para dar lugar aos modernos templos da sociedade de consumo - os supermercados e shopping centers. Na Alemanha, certamente, há forças sociais e políticas que resistem aos propósitos da direita de silenciar não só a respeito do passado
nazista do país como também da luta dos homens e mulheres que resistiram ao fascismo, inclusive dentro dos próprios campos de concentração. A Galeria Olga Benario, em Berlim, com sede no tradicional bairro operário de Neukölln, pode ser citada como exemplo desse tipo de resistência. Seus jovens organizadores desenvolvem há anos um esforço gigantesco para, entre outras atividades sociais, políticas e culturais, resgatar a memória dos revolucionários que dedicaram suas vidas à luta pelo progresso social, pela democracia e pelo socialismo.[5] A tendência dominante nos meios de comunicação ideologicamente controlados pelos donos do poder é, contudo, a de silenciar o passado de luta desses revolucionários e antifascistas. O Chile, hoje, pode ser considerado um outro exemplo da tática do silêncio, adotada pela direita atual. O cineasta chileno Patrício Guzman rodou há alguns meses, em seu país, o documentário A memória obstinada, em que revela o quase total desconhecimento, pelos jovens de hoje, da história recente de sua pátria, ou seja, dos acontecimentos relacionados com o governo democrático da Unidade Popular, dirigido por Salvador Allende, e a sua trágica deposição pelo golpe militar comandado por Augusto Pinochet. Relata Guzman que muitos jovens lhe disseram: “Eu não sabia que as coisas haviam acontecido desta maneira...”, quando lhes foi exibido um documentário anterior do mesmo cineasta - A batalha do Chile (1973- 1979) -, sobre o governo Allende e o golpe militar.[6] Desta forma, a direita no Chile tenta apagar da memória das novas gerações desse país o seu passado recente de grandes lutas e conquistas democráticas e os nomes de heróis, como Salvador Allende, que deram suas vidas por um futuro melhor para o seu povo.
No Brasil, a direita, durante os vinte anos da ditadura militar inaugurada em 1964, adotou a tática do silêncio, particularmente em relação a Luiz Carlos Prestes, embora em períodos anteriores também houvesse recorrido a semelhante expediente. Nas condições atuais do país, de existência de uma relativa liberdade de imprensa - ainda que aliada a uma crescente manipulação da opinião pública -, não sendo mais possível manter silêncio absoluto a respeito de Prestes, procura-se hoje desenvolver formas sutis de, sem recorrer ao ataque direto, descaracterizar a sua figura. Na virada para o século XXI, é necessário apelar para a criatividade dos “intelectuais orgânicos” a serviço da burguesia para encontrar meios mais eficazes de convencimento das pessoas e de construção de um consenso social, capaz de assegurar sua hegemonia política. Em junho de 1991, decorrido apenas um ano do falecimento de Prestes, o Ministério do Exército declarava anistiado o antigo general da Coluna Invicta, promovendo-o ao posto de coronel e concedendo à sua família o direito de receber pensão militar[7], por considerá-lo na reserva, desde que atingira a idade-limite para permanecer na ativa. O aparente reconhecimento dos méritos de Prestes não passava, contudo, de uma hábil tentativa de enquadrá-lo no sistema dominante, de descaracterizar sua figura de revolucionário e comunista, de torná-lo inofensivo perante as novas gerações.
Certamente, não foi casual o fato de essa medida ter sido adotada após o desaparecimento de Prestes: enquanto viveu, ele jamais admitiu voltar às fileiras da corporação da qual, na juventude, se demitira duas vezes e fora posteriormente expulso. Contando com a lamentável colaboração de uma parte da família de Prestes[8], os atuais donos do poder tentaram, desta forma, apropriar-se do legado de uma vida dedicada
inteiramente à revolução social e à contestação da ordem vigente, cuja manutenção é garantida por esse mesmo Exército, que o promoveu a coronel. Temos aí um exemplo das formas sutis empregadas atualmente pela direita para acabar com os supostos “mitos” da esquerda. Outros exemplos poderiam ser citados: todos corroborando a utilização de uma imagem “fabricada” de Prestes, útil aos intentos dos políticos necessitados de conquistar alguma simpatia popular. Sem abandonar a repetição de conhecidas e surradas calúnias contra os comunistas e, em particular, contra Prestes, procura-se difundir uma nova imagem do Cavaleiro da Esperança - a de um homem “puro e ingênuo”,[9] indiscutivelmente honesto (é difícil duvidar de sua honestidade), um bom pai de família, até mesmo um amante das flores e cultivador de roseiras, mas um militar rígido (evita-se lembrar seu reconhecido talento como estrategista, revelado durante a Marcha da Coluna Prestes), incapaz de compreender as nuanças da política. Sua vida política, portanto, não teria passado de uma lamentável sucessão de erros e fracassos - um exemplo desastroso, que não merece ser seguido pelos jovens de hoje, uma vez que se trata de lhes incutir a visão de que só devem ser adotados os “modelos” vitoriosos. Desta forma, é “fabricada” uma imagem “domesticada” ou “pasteurizada”
de Luiz Carlos Prestes - a de uma personalidade que merece muito mais compaixão pelos sofrimentos por que passou do que admiração pelo seu heroismo, pela dedicação sem limites à causa da libertação do seu povo de todo tipo de dominação e exploração, pela firmeza na defesa das convicções revolucionárias assumidas. O herói, o revolucionário, o patriota, o comunista convicto são silenciados, para criar-se uma imagem de um Prestes inofensivo para os dominadores e exploradores de hoje. Este é o tipo de tratamento da imagem de Prestes apresentado no filme documentário “O Velho - A História de Luiz Carlos Prestes”, de autoria de Toni Venturi. Embora o diretor do filme tenha afirmado que não pretendia fazer História, mas somente cinema[10], ao produzir um documentário sobre um personagem histórico como Luiz Carlos Prestes está, na realidade, fazendo História e levando aos espectadores uma determinada versão da história. Como disse o cineasta chileno Patrício Guzman, “o documentarista é um testemunho que toma partido, que se envolve plenamente com o que conta e isto é bom”, acrescentando: “O documentário não é um olho ou uma janela, sim uma representação da realidade. O único documentário objetivo está nas imagens das câmeras de vídeo dos bancos ou de controle do trânsito.”[11] O filme “O Velho” não só está repleto de erros factuais grosseiros, revelando de parte de seus autores um desconhecimento total da história da época e, em particular, da vida de Prestes, como incorre em graves deturpações e distorções em relação ao período histórico supostamente retratado com imparcialidade. Na verdade, o que se percebe no filme é a repetição - embora de forma mais sofisticada - de conhecidas calúnias e inverdades, que a direita sempre lançou contra os comunistas e, em especial, contra Luiz Carlos Prestes. Como seria possível concordar com a opinião do júri do festival intitulado “É tudo verdade”, que premiou “O Velho”, quando afirma que o documentário retratou com fidelidade a história do Cavaleiro da Esperança, se a cada passo do filme nos deparamos com erros escandalosos e imperdoáveis? O célebre Manifesto de Maio de 1930, lançado por Prestes em Buenos Aires, foi parar no mês de julho. A foto de Clotilde Prestes é mostrada como sendo de sua mãe, Leocádia Prestes. O filme mostra cenas da mãe de Prestes recebendo cartas supostamente por ele enviadas durante a Marcha da Coluna, algo totalmente impossível de ter acontecido, pois os rebeldes, ao marcharem pelo interior do Brasil, careciam de qualquer meio de comunicação com as grande cidades e a capital do país.
Da mesma forma, os acontecimentos de 1930, quando Prestes rompeu com os “tenentes” (e não com Vargas, como se diz no filme), estão invertidos em sua ordem cronológica, tornando-os incompreensíveis. O general Miguel Costa é citado como chefe da Revolta tenentista de 1924 em S.Paulo e como presidente da Aliança Nacional Libertadora em 1935, o que, em ambos os casos, não corresponde à realidade. Afirma-se que Prestes não teria sabido, na prisão, do falecimento da mãe, o que também não é verdade. Omitese inteiramente a intensa atividade desenvolvida por Prestes na Europa, durante os anos 70, em solidariedade aos presos e perseguidos políticos no Brasil, criando uma imagem deturpada de sua vida política nesse período. Etc. etc. Trata-se, pois, de uma sucessão de erros, imprecisões e deturpações grosseiras da vida do personagem supostamente retratado, assim como do período histórico em que ele atuou. Mais uma vez, são repetidos os estereótipos criados pela direita e consagrados pela História Oficial sobre a suposta “Intentona Comunista” - na realidade, um movimento de caráter antifascista, antiimperialista e antilatifundista, que jamais pretendeu implantar o comunismo no Brasil, conforme a versão difundida pelos donos do poder. Mais uma vez, repetem-se as calúnias contra os comunistas e, em particular, contra Luiz Carlos Prestes e Olga Benário Prestes, de que seriam meros “agentes de Moscou”, empenhados em deflagrar uma revolução comunista no Brasil, falsificação grosseira da história e total deturpação do efetivo caráter das relações que imperavam entre os partidos comunistas, no seio da Internacional Comunista.
Embora os autores de “O Velho” tenham adotado uma postura de aparente imparcialidade, na medida em que entrevistaram as mais variadas pessoas, seja de direita seja de esquerda, na realidade, o filme revela uma linha político-ideológica definida e apresenta uma mensagem de caráter anticomunista bastante evidente. O principal analista dos acontecimentos de 1935, sintomaticamente, é o jornalista W. Waack, cuja “interpretação” da história não passa deuma grotesca e caricata manipulação dos documentos por ele consultados nos arquivos de Moscou.[12] Da mesma forma, a análise da Coluna Prestes é feita por Eliane
Brum, jornalista que se distinguiu pela maneira irresponsável e tendenciosa como tratou a memória desse importante episódio da nossa história, numa série de reportagens de péssima qualidade, surpreendemente publicadas posteriormente em livro.[13] Segundo E. Brum, a Coluna não teria passado de um grupo de bandidos e estupradores, que percorreram o Brasil cometendo todo tipo de desatinos contra as populações do interior do país - tese que não consegue sustentar-se diante da evidência dos fatos hoje amplamente conhecidos.[14] Em contrapartida, o papel destinado, no filme de T. Venturi, aos entrevistados de esquerda é claramente subalterno. Os historiadores Nelson Werneck Sodré e Marly Vianna ficaram com os seus depoimentos prejudicados pelos cortes frequentes e abruptos, que não permitem ao espectador acompanhar devidamente a exposição de suas idéias e os argumentos por eles apresentados. As entrevistas de intelectuais como Oscar Niemeyer e Ferreira Gullart, em que são externadas opiniões favoráveis a Prestes e aos comunistas, aparecem ligeiramente e sem o destaque dado aos depoimentos de seus inimigos ou adversários. Tanto os autores do documentário quanto os membros do júri que o premiaram revelaram, no mínimo, um total desprezo pela verdade, que o referido festival pretendia retratar. Ao incluir o documentário citado na mostra “É tudo verdade”, e, mais ainda, ao premiá-lo, os organizadores do festival e o seu júri, da mesma forma como aqueles órgãos de divulgação que se mostraram empenhados em sua propaganda, estão, na prática, contribuindo para a desinformação do público e para que os estereótipos fartamente propalados pelo anticomunismo dos tempos da “guerra fria” continuem presentes, influindo na formação das novas gerações que, dessa forma, ficarão ainda mais distantes do conhecimento de nossa história contemporânea.
Com o filme “O Velho”, temos mais um exemplo edificante de como se fabrica e se difunde a HISTÓRIA OFICIAL - aquela que contribui para assegurar a hegemonia dos donos do poder -, num período histórico de avanço da chamada “globalização”, ou seja, de derrota, no cenário internacional, das forças alinhadas com a perspectiva socialista e de progresso e justiça social. Para quem se interessa seja pela história do Brasil seja pela vida de Luiz Carlos Prestes, parece oportuno lembrar estas questões.
Com o filme “O Velho”, assistimos a mais uma tentativa empreendida pelos “intelectuais orgânicos” comprometidos, consciente ou inconscientemente, com a direita de acabar com os “mitos” da esquerda. Neste caso, trata-se, principalmente, de desmoralizar, desgastar, banalizar e tornar inofensiva, para os donos do poder, a figura de Luiz Carlos Prestes. Da mesma forma, procura-se acabar com outro “mito”, que na última década conquistou os corações e as mentes de milhões de pessoas, tanto no Brasil quanto no exterior, através do livro Olga de Fernado Morais[15] - a figura da revolucionária e comunista Olga Benário Prestes, tragicamente assassinada numa câmera de gás de um campo de concentração da Alemanha nazista, para onde fora ilegalmente deportada pelo governo de Getúlio Vargas. A tática da deturpação histórica vem se tornando cada vez mais generalizada, utilizando-se os seus mentores dos atuais meios de comunicação de massa, extremamente poderosos e sofisticados. Dentre eles, o cinema adquire uma importância capital, na medida em que, através da imagem, torna-se possível exercer uma influência
muito maior junto ao grande público. Parece sintomático que, no mesmo momento em que é lançado o documentário “O Velho”, também se dê a estréia do filme de longa metragem “O que é isso companheiro?” de Bruno Barreto. Temos um novo exemplo de manipulação da história recente do país, quando os episódios relacionados com o sequestro do embaixador norte-americano no Brasil, em 1969, são apresentados de maneira a condenar a violência dos jovens sequestradores - que lutavam contra a ditadura militar, embora se possa discordar dos métodos por eles utilizados, - e a sutilmente desculpar a violência da ditadura; chega-se ao extremo de procurar “amenizar” o horror da tortura institucionalizada durante os “anos de chumbo”. Desta forma, adota-se uma postura conciliatória com a ditadura militar que dominou o país por mais de vinte anos, na tentativa de afastar os jovens de hoje de qualquer simpatia por atitudes de rebeldia ou contestação à ordem vigente. Procura-se, assim, acabar com o “mito” das esquerdas no Brasil.
A manipulação da memória histórica pelos donos do poder não é nova. Já no caso do tenentismo, tivemos um exemplo de como, a partir da vitória do movimento de 30, os “intelectuais orgânicos” ligados ao poder, procuraram utilizar-se do prestígio dos jovens “tenentes” da década de vinte para justificar as políticas
implementadas pelos setores dominantes.[16] A novidade atual reside na intenção declarada de alcançar, através de expedientes cada vez mais elaborados e sutis - quando a tecnologia avançada dos dias de hoje é colocada a serviço dos desígnios das forças de direita -, a “desmitificação” seja dos acontecimentos seja dos personagens que ainda provocam admiração e respeito junto a setores significativos da sociedade. Este é o caso, no Brasil, de Luiz Carlos Prestes - personalidade respeitada e admirada até mesmo por seus adversários políticos, personagem símbolo da luta revolucionária no país, da luta pelo socialismo no Brasil. Este é o caso, também, de Olga Benario Prestes - personagem heróica das esquerdas tanto no Brasil quanto no cenário mundial, imortalizada nas páginas comoventes do livro Olga. Este é o caso dos jovens revolucionários que lutaram e tombaram tragicamente na luta contra a ditadura implantada no país em 1964. Este será o caso de muitos outros acontecimentos e personagens de esquerda, enquanto essa estratégia “desmitificadora” da direita não for neutralizada e derrotada.
Artigo publicado na revista Cultura Vozes, n° 4, volume 91, Petrópolis (RJ), julho-agosto de 1997, p.51- 62.
* Os conceitos de “direita” e “esquerda” são empregados conforme BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política. S.P., EDUSP, 1995.
[1] Cf., por exemplo, WAACK, William. Camaradas: nos arquivos de Moscou: a história secreta da revolução brasileira de 1935. S.P., Comp. das Letras, 1993, p. 11.
[2] Cf. RAMOS, Saulo. “Entrevista”, EXAME VIP, Nº 9, 2/10/91, P. 24-31.
[3] Cf. WAACK, W. Op. cit., capítulo 2
[4] Documentos que se encontram no processo movido contra L.C. Prestes pelo Tribunal de Segurança Nacional, hoje depositados no Arquivo do STM, sediado em Brasília.
[5] Sobre a Galeria Olga Benario, cf. EHRENFORT, Petra, “A Galeria Olga Benário em Berlim ‘Queremos fazer um trabalho do qual Olga se orgulhasse!’”, in STRAUSS, Dieter (org.) Não Olhe nos Olhos do Inimigo: Olga Benário e Anne Frank. R.J., Paz e Terra, 1995, p. ll5- 118.
[6] Cf. SANTOS, Elza Fernandez, “Chile revê o seu passado”, Jornal do Brasil, R.J., “Caderno B”, 6/5/97, p.2.
[7] A autora deste artigo, filha de L.C. Prestes, recusou a pensão de coronel do Exército do seu pai, assinando termo de renúncia, encaminhado oficialmente ao Ministério do Exército, datado de
10/08/92.
[8] A víuva de Prestes, contrariando a vontade por ele expressa em vida, solicitou ao Ministério do Exército a reintegração de Prestes no Exército e a pensão militar, que foi concedida às suas filhas mulheres.
[9] Cf., por exemplo, CONY, Carlos Heitor, “Prestes teve o ímpeto dos puros e ingênuos”, Folha de S. Paulo, “Folha Ilustrada”, S.P., 11/04/97, p. 19.
[10] Cf. Folha de S.Paulo, “Folha ilustrada”, 23/04/97.
[11] Cf. SANTOS, Elza Fernandes. Op. cit.
[12] Cf. WAACK, W. Op. cit.
[13] Cf. BRUM, Eliane. Coluna Prestes: o Avesso da Lenda. Porto Alegre, Artes e Ofícios, 1994.
[14] Cf. PRESTES, Anita Leocádia. A Coluna Prestes. 3ª ed. S.P., Brasiliense, 1991.
[15] MORAIS, Fernando. Olga. S.P., Ed. Alga-Omega, 1985.
[16] Cf. PRESTES, Anita Leocadia. “70 anos da Coluna Prestes: a história oficial ontem e hoje”, Cultura Vozes, nº 5, setembro/ outubro,1994, p. 67-76.







sexta-feira, 11 de maio de 2012

Resenha - Os anos JK: uma trajetória política.

Os Anos JK: De Getúlio a Juscelino, o Brasil no Cinema.


Um Filme de Silvio Tendler. 

Os Anos JK - Uma Trajetória Política, primeiro longa-metragem de Silvio Tendler, satisfaz de um lado a necessária e quase vital fome de imagens que temos de nosso passado, recuperando um segmento da história brasileira e, de outro lado, procura trazer - de forma às vezes didática - um espírito de conciliação política que acredita ser útil nos nossos dias. E, como se houvesse uma linha que o ligasse aos seus similares antecessores Getúlio Vargas de Ana Carolina e O Mundo em que Getúlio Viveu de Jorge Ileli, assume a linguagem da personalidade que escolheu como objeto de análise, embora isso se faça a partir de uma perspectiva crítica - nem sempre justa - dos acontecimentos.
Dirigindo-se aos mais jovens, segundo palavras dos seus realizadores, esses filmes pretendem dar àqueles que não viveram uma época da nossa história a medida de emoção que os livros nem sempre preservam, por meio da magia das imagens recuperadas ao tempo.  É por isso que a sua posição diante dos fatos não pode ser fria ou neutra, eles terminam sendo como que contagiados pela força das imagens e de seu fascínio e o tempo redescoberto resulta ainda mais intenso do que se tivesse sido efetivamente vivido. No Brasil, onde a memória é permanentemente escamoteada, toda tentativa de recuperação de um segmento de nosso acervo histórico transforma-se numa aventura quase épica, o que contagia não apenas a disposição daqueles que dela participam como acaba se incorporando ao seu próprio discurso. Daí porque nem mesmo a suposta objetividade factual que Jorge Ileli inscreve como epígrafe de seu filme escapa à adesão do cineasta ao político, que é visto amavelmente como estadista e um homem que soube interpretar o seu tempo. Num caminho diverso e professando uma adesão ainda maior ao seu personagem, o mesmo Getúlio Vargas, Ana Carolina enfatiza o seu compromisso político com os mais pobres, os obstáculos que lhe foram opostos e a grandeza histórica do seu gesto de sacrifício pessoal.
Juscelino em posse presidencial, em 1956.
É claro que essas posições refletem também — além do envolvimento pessoal dos diretores com seu personagem — uma tomada de posição ainda mais ampla, num momento da vida política brasileira em que as lideranças se encontravam completamente ofuscadas. Retomar uma figura morta há vinte anos, que emergiu da República Velha para se tornar por mais de duas décadas a mais importante personalidade da nossa vida pública, implicava também um projeto para o futuro: o sacrifício de Vargas interrompeu um processo político do qual sua Carta-Testamento ainda continua sendo o programa mais claro e contundente. Ana Carolina e Jorge Ileli acreditavam então estarem propondo a continuação de um debate que — embora tivesse sido suspenso — não está de maneira alguma encerrado.
No nível da linguagem do cinema e correspondendo a um contexto político mais abrangente, este debate continua agora com Os Anos JK, não mais segundo a perspectiva do populismo gaúcho e trabalhista de Getúlio, mas sob a ótica do populismo mineiro e pessedista de Juscelino, que o sucedeu como presidente e líder. JK não deixa um testamento político explícito - sua morte foi inesperada e o colheu num momento em que ele próprio se acreditava com possibilidades de voltar à vida pública — mas lega uma imagem bastante contemporânea: a de um Brasil moderno que ele ufanisticamente ajudou a forjar no curso de seu exercício presidencial. Uma das características dessa imagem se traduz na persistência e continuidade da política de conciliação que certamente ficará como a marca do estilo pessedista, tema que o filme de Silvio Tendler assume em um dos seus desdobramentos: a anistia aos sublevados. Nesse momento, Os Anos JK deixa de ser um fenômeno especificamente cinematográfico, bastante meritório por sinal, já que realiza a irrefutável vocação do cinema - ao recuperar e/ou preservar o tempo e demonstra respeito ao som e à imagem - para se colocar no curso da nossa história, trazendo do passado, senão um programa, ao menos um estilo que possa servir de modelo para a política de abertura que está sendo posta em prática.
Juscelino prefeito de Belo Horizonte, em 1941.
No entanto, essas proposições não poderiam ser meramente discursivas. Elas necessitam da força das imagens sem as quais se transformariam em simples retórica: é assim que esse estilo pode se manifestar através daquele que lhe deu a sua forma mais aprimorada: o fenômeno JK. A princípio, nós não vemos o personagem principal do filme, que começa com a promulgação da Constituição de 46, mas aos poucos aparecerá a figura do prefeito de Belo Horizonte que não hesitou em chamar dois comunistas para trabalhar na construção da Pampulha e transformou o projeto em plataforma para chegar ao governo do Estado de Minas Gerais. Terá sido um simples ato de carreirismo? Ou estamos diante do carisma de um verdadeiro líder político? Sabemos hoje que a escalada não pára no Palácio da Liberdade, sede do Governo mineiro. Ela se dirigirá rumo ao Catete e, apesar de golpes e contragolpes, chegará à Presidência. Será preciso a intervenção de um Ministro da Guerra de pulso forte, o general Lott, que irá evitar a mudança do quadro institucional com o contra-golpe de novembro de 1955. Diante de poderosas forças políticas de oposição, JK lança mão do seu repertório forjado no aprendizado com Benedito Valadares, velho cacique mineiro, e com o próprio Getúlio. Seu estilo de pregação será o programa de uma verdadeira união nacional em torno de uma ideologia desenvolvimentista que promete fazer o Brasil saltar cinqüenta anos em apenas cinco anos de Governo.
Para consolidar este futuro, JK promete a construção de uma nova capital, que será erguida no coração do país. E, assim como a construção da Pampulha mudou a face da capital mineira, Juscelino acredita que Brasília mudará a face do Brasil. Oscar Niemeyer é novamente convocado para, por meio de suas linhas revolucionárias de arquitetura, projetar a nova capital como símbolo de uma nova nação. Seria essa posição de JK apenas a demonstração da predominância de velhos ranços regionalistas? Ou estaria aí contida uma proposta de messianismo de face nacional e institucional? Ê certo que o clima juscelinista de governo, ditado pelo seu comportamento político grandiloqüente e ao mesmo tempo descontraído, será marcado pela euforia, um verdadeiro porre — como lembra um depoente — mas sempre identificado com um estilo de brasilidade, que é a verdadeira condição de seu populismo.
Na trilha desta trajetória, Silvio Tendler se serve de um repositório de imagens que nossos olhos se desabituaram a ver: cenas de antigos jornais de atualidades mostrando políticos em cenas de inaugurações, visitas diversas, comícios etc..., que foram sendo eliminadas das telas dos cinemas desde que as vaias começaram a se tornar muito incômodas, e hoje preenchem as telas dos aparelhos dos nossos televisores. Essas imagens terminam por provocar um sentimento de ironia porque apesar do constante solapamento de nossa memória e do progressivo esquecimento de nossa identidade decorrente da negação do nosso passado, somos forçados a constatar que os protagonistas de nossa cena política são praticamente os mesmos há três décadas. Ao longo dos jornais de atualidades, desfilam rostos muito familiares, que podem ser perfeitamente entrevistos por trás da máscara que o tempo constrói.
Apesar das sucessivas reviravoltas de nossa política - principalmente até 1964 - reconhecemos que as ideologias em luta pelo poder não apenas continuam as mesmas como seus representantes - com raras exceções - ainda permanecem no velho palco de nossa cena institucional. De Tancredo Neves ao general Ernesto Geisel, passando por Afonso Arinos, Jurandir Bizarria Mamede e Mourão Filho - para citarmos somente alguns - o filme mostra como inúmeras personalidades participaram do nosso drama político, algumas vezes começando como figurantes e passando a atores secundários, para terminarem como estrelas máximas, prima-donas de nossa ópera política. Curiosamente, ao longo da trajetória política de Juscelino Kubitschek desfilam vários personagens que serão elevados do ostracismo ao primeiro plano. O filme de Silvio Tendler sacia então um pouco a nossa fome e sede de imagens, arrancando-as à imobilidade museológica onde, propositalmente ou não, elas tinham sido confinadas. Para isso, foi certamente necessário um trabalho de paciência e tenacidade que se estendeu por mais de três anos, o que pode lhe ter sido prejudicial e tê-lo frustrado em um dos seus melhores e mais explícitos objetivos: sua proposta política.
Inauguração de Brasília, 21 de Abril de 1960.
A documentação de que Os Anos JK se serve nem sempre é vasta e uniforme e procura centrar-se na figura do político que escolheu como objeto de análise. Deixa, portanto, algumas lacunas na abordagem do processo histórico e social em que JK atuou como presidente, especialmente na visão das questões operárias e da reforma agrária, que não são tratadas como deveriam. No entanto, detendo-se mais sobre o caráter político da personalidade de Juscelino, o trabalho de Silvio Tendler extrai o estilo básico de seu comportamento: o espírito de conciliação política, a capacidade de amenizar conflitos partidários, diluir tensões sociais, fazer concessões, conceder perdões e, sobretudo, de manter viva — através de um constante otimismo — a chama da ideologia do desenvolvimentismo e o carisma de seu condutor. Enfatizando o viés carismático de seu discurso, fazendo confluir para a personalidade magnética do seu biografado o processo político brasileiro, o diretor prolonga o debate posto nas telas pelos filmes de Ana Carolina e Jorge Ileli e ao herói sacrificado de Getúlio Vargas e O Mundo em que Getúlio Viveu, personalista, autoritário, paternal e que tarde descobre o jogo multinacional de interesses que o envolve, propõe o político ardiloso - isto não quer dizer que Getúlio o era menos - de formação tipicamente urbana – no que se contrapõe a Getúlio, um produto da aristocracia rural gaúcha - e de espírito mais formalmente democrático, possuidor de um incrível talento para conseguir seus objetivos através da persuasão, características que compartilhava com o autoritário Getúlio. Uma simples mudança de estilo, talvez? Não apenas isso, por certo já que Juscelino procurará recolocar o Brasil no caminho dos países ocidentais capitalistas — o que nem sempre pareceu claro no período getulista — mas seu mérito reside no fato de que soube conduzir seu governo num clima de maior abertura política, onde não faltou até mesmo uma ampla, geral e irrestrita anistia política aos participantes dos movimentos direitistas de Aragarças e Jacareacanga.
            Esse claro gesto de conciliação, sinal de um espírito livre de rancores para com os adversários, constitui o legado juscelinista para o atual momento brasileiro e essa seria certamente - não fosse o atraso no lançamento - a bandeira com a qual o filme, e por extensão o próprio cinema brasileiro, estaria participando do processo de distensão política que está em curso. Assim como o filme Getúlio Vargas, à época do seu lançamento em 1974, procurava recolocar a atualidade da Carta-Testamento, recordando a permanência dos mesmos problemas e a constante necessidade da luta pela integridade nacional denunciados no documento, e o fazia num instante de intensa desnacionalização da nossa economia, Os Anos JK - Uma Trajetória Política traz dos arquivos quase esquecidos e mal conservados do nosso passado a imagem de um dirigente conservador no plano social, excessivamente aberto ao capital estrangeiro no plano econômico, mas que atuava no campo político de forma democrática, a ponto de ter conseguido passar este sentimento a todo um país durante os cinco anos de seu período. Mesmo não tendo chegado no momento do debate em que sua participação teria sido mais oportuna, o filme de Silvio Tendler retoma a importância às vezes esquecida do cinema como veículo de discussão dos problemas do nosso país. Num plano mais particular, sabemos que houve um quase desaparecimento do cinema de debate mais especificamente político em anos passados, mas a existência de um filme como Os Anos JK lembra, com insistência quase hipnótica, o poder irrefutável das suas imagens arrancadas ao rio do tempo de Heráclito, onde não nos banharemos duas vezes, mas que servem para nos mostrar o que fomos e como somos, no palco onde desfilam algumas das contínuas expectativas do povo brasileiro e os persistentes interesses dos mais fortes.
Juscelino e Carlos Lacerda, exilados políticos em 1964.
A força dessas imagens — que devemos preservar cada vez mais com atenção e carinho — não tem apenas um valor para historiadores, sociólogos, jornalistas ou quaisquer outros eventuais interessados, mas são como que uma fenomenologia do nosso modo de ser. Uma vez, numa conversa, Nelson Rodrigues falava, com aquela sua linguagem peculiar, que "no cinema, depois de dez anos, tudo fica perto do delito atroz: o sorriso do bandido, toda a gesticulação". E observava:
– É uma coisa muito espantosa. E a gente pensa: nós não somos assim. Mas, realmente, nós somos assim.
            As imagens do nosso passado, que frequentemente descobrimos como coisa nunca vista, permitem, como lembrou Nelson Rodrigues, olharmo-nos de frente como se estivéssemos num espelho. Mas, se elas representam um precioso acervo para o nosso conhecimento histórico, trazem também o incrível encanto do detalhe, aquele "sorriso do bandido" de que falou o escritor, o flagrante que faz a delícia do fotógrafo, o momento em que a pessoa cai e a câmara registra a reação em seu rosto. Anos de censura baniram de nossa visão essas imagens que estavam mais próximas da escala humana com a qual devemos julgar nossas figuras públicas. Recuperadas no filme de Silvio Tendler — e na verdade elas são apenas uma parte de um acervo ainda inexplorado — evidenciam precisamente a presença do cinegrafista como um olho atento aos acontecimentos de nossa história. Rendem, portanto, tributo ao homem da câmara que, como queria o inventor Dziga-Vertov, deve ser um agente da "decifração documental do mundo visível". Sem depreciar o valor do texto de Cláudio Bojunga, às vezes didático e com boa dose de ironia, embora soe freqüentemente como uma reescritura dos livros de Hélio Silva, o filme de Silvio Tendler recompõe - além da própria personalidade de JK e seu brilhante estilo político - o valor das imagens de nosso passado. Voltando a Vertov: "nada de documentos-palavra, só cine-documento".                                                                                       

SIQUEIRA, Sérvulo. Os Anos JK: De Getúlio a Juscelino, o Brasil no Cinema. Revista Filme Cultura nº 37, Jan/Fev/Mar 1981.



terça-feira, 8 de maio de 2012

Texto de Apoio ao professor - Soldados da Borracha.

Ciclo da Borracha –– 1º Boom da Borracha –– 1ª imigração Nordestina.

O chamado “ciclo da borracha” é hoje um dos mais importantes episódios da história econômica da Amazônia e pode ser dividido em dois momentos:
·         1º Boom da Borracha – (1850-1914).
·         2º Boom da borracha –(1940-1945).
A borracha é uma goma elástica extraída da seringueira (Hevea Brasiliensis). Enquanto produto comercial, a borracha adquiriu importância a partir do desenvolvimento da atividade automobilística e acabou por promover uma grande expansão na colonização da Região Norte e grande impulso econômico e cultural às cidades de Belém e Manaus. A grande demanda no mercado internacional fez da Amazônia a grande exportadora da goma elástica, segundo afirma a historiadora Cristina Wolff:
“Até 1880, a Amazônia foi o único fornecedor, sendo suplantado então pelas plantações de seringueiras Asiáticas, que desencadearam a crise do preço da borracha”. [1]

O 1º Boom da Borracha chegava ao fim, mas as transformações no espaço Amazônico foram significativas, pois a intensificação das atividades econômicas relacionadas à extração da borracha gerou uma necessidade crescente de mão de obra para o trabalho extrativo e como  solução o governo estimulou a imigração de famílias nordestinas para a região, a fim de suprir essa necessidade.
Muitos Nordestinos se dirigiram para a região, alguns muito jovens, perseguindo o sonho de uma vida melhor. O término desse primeiro ciclo da borracha não só destruiu sonhos como fez aumentar na Amazônia e em toda a região Norte os problemas econômicos e sociais devido ao inchaço populacional provocado por essa primeira migração Nordestina.

Segunda Guerra Mundial –– Governo Vargas –– Pan-americanismo.
Em 1939, explode a segunda guerra mundial dividindo as nações do mundo e dispondo-as em alianças militares opostas: de um lado os Aliados (União Soviética, Estados Unidos, França e outros), de outro lado o Eixo (Alemanha, Itália, Japão).
No Brasil vivíamos a ditadura Varguista e o governo optou pela neutralidade durante um tempo, ainda que Vargas tenha se mostrado simpático ao regime nazifascista, como comprovam tanto a historiografia quanto os filmes que já assistimos (Olga e memórias do Cárcere), todos baseados em livros.
O ataque dos japoneses à Pearl Harbor forçou a entrada dos norte-americanos na guerra, em 7 de dezembro de 1941 e a ocupação da Malásia pelos japoneses deixou os EUA em uma situação critica já que os norte-americanos dependiam da borracha que a Malásia produzia como podemos perceber no filme “ Borracha para a vitória” em uma das falas do nordestino Hélio Pinto da Silva.
“Os ingleses levaram a semente aclimataram e plantaram na Malásia há muitos anos, e ai quando foi na segunda grande guerra, eles eram os maiores produtores da borracha. Os Japoneses eram aliados dos alemães e tomaram à Malásia, e os ingleses aí ficaram sem borracha e os aliados também. Aí recorreram ao Brasil que era o único produtor.”




[1] WOLFF, Cristina Scheibe. Mulheres da floresta: Uma História: Alto Juruá, Acre (1890-1945). São Paulo: Hucitec, 1999.

Diante disso, a saída era criar um mercado alternativo, assim o Brasil surgiu como uma opção para os Estados Unidos, por possuir um histórico de extração e áreas promissoras. O Brasil, ou melhor, a Amazônia, representava o Eldorado latino-americano, os norte-americanos acreditavam que a borracha brasileira os salvaria da crise, garantiria a estabilidade econômica e contribuiria para integrar toda a América Latina (pan-americanismo). Então, como fosse oportuno para o governo Vargas e interessante para os norte-americanos, o Brasil assinou com os EUA os acordos da borracha, que de acordo com o historiador Seth Garfield:
“eram estratégicos para os Estados Unidos, porque tinham como objetivo a oferta de aconselhamento técnico e de equipamentos para aumentar a produtividade de uma commodity que o país não produzia e da qual necessitava para atender suas necessidades básicas.” [i]
Para o Brasil a assinatura dos Acordos de Washington em março de 1942 foi providencial, pois os gastos para financiar a produção e a exportação da goma elástica ficaram sob-responsabilidade dos Estados Unidos, que também se comprometeram a subsidiar a migração de milhares de nordestinos pra compor a mão de obra necessária para o esforço de guerra. O governo Vargas garantia ainda o capital necessário para implantar a indústria siderúrgica no país e financiar a compra de material bélico para equipar o exército brasileiro, e resolvia ainda dois grandes problemas: a ocupação dos vazios geográficos e a questão da seca no Nordeste. O Brasil entrava definitivamente na Guerra ao lado dos Aliados.
A Ruber Reserve Company era a agencia norte-americana responsável pelo controle da produção e exportação da borracha e, segundo os Acordos de Washington, ela investiria 5 milhões de dólares na região Amazônica, enquanto o governo brasileiro investiria 10 milhões de cruzeiros. Vargas esperava controlar o capital norte-americano que entrava no país, mas os EUA detiveram o controle mesmo diante das reações do governo Vargas.
2º Boom da Borracha –– 2ª Migração Nordestina –– Soldados da Borracha.
Trocando a enxada pela faca de seringa, e a aridez do sertão pela floresta estima-se que cerca de 100.000 nordestinos vieram para a Amazônia, seduzidos por uma propaganda extravagante, expulsos pelos flagelos da seca ou recrutados sob pressão do exército. Podemos perceber como se dava a vinda para a Amazônia a partir da fala de alguns desses nordestinos que vieram mobilizados por alguns desses motivos.
Lupércio Freire Maia – Morada Nova (CE):

“Eu tinha já de os 17 pra os 18 anos. Aí eu tava mais o papai, aí chegou um cumpade do papai e foi e disse: Cumpade, cê tem cuidado que o americano tá pegando toda essa rapaziadinha e tá levando tudo. Aí foi eu tava alimpando um feijão de corda mais o papai, aí ele disse: Ei, vem cá. Aí papai foi e soltou a enxada e eu soltei e vim. –– suba aqui no caminhão. Papai disse: Não, ele num vai agora não, vai depois. Não aqui num tem negócio de depois não, vai agora.” 
Alcindo dos Santos – Petrolina (CE)

“Me alistei em Petrolina à 3 horas da tarde, quem me alistou foi um capitão do exército 7º Batalhão de Engenharia, dizendo ele que eu tinha que vim pra qui, pra Amazônia ou antonce ia pros campo de batalha, na época da II Guerra Mundial. Preferi vir pra Amazona. Não vim com boa vontade, que deixei a minha velha mãe, me pediu quando tava os alistamento que pelo leite que eu mamei nos peito dela, eu não viesse pra Amazona.” 
Hélio Pinto Vieira – Canindé (CE)

“Meu pai era prefeito né, e eu trabalhava lá numa casa comercial da nossa família, não tinha necessidade de nada, que nóis tinha propriedade, fazenda, tudo. Fui por espírito de patriotismo, como voluntário.”
Vivencia Bezerra da Costa – Alto Santo (CE)

“Chegou lá no Alto Santo uma lista pros rapaz de maior vim tudo pa Fortaleza pela SEMTA né. A SEMTA num é que nem migração. Migração que nóis viemo é família e a SEMTA é só rapaz né, fica naquele pouso. Aí minha mãe foi e começou a chorar, aí disse: Chico Antonio, meu filho nunca pegou numa arma, meu filho vai morrer issassini, e vão levar meu filho pra guerra, eu também num fico mais aqui, se você quiser também ir pro Acre, pro Amazonas, vum borá que eu também num fico mais aqui não.
O Nordeste vivenciou uma seca voraz nos anos de 1942e 1943, fato esse que fica evidente no filme na fala desses dois personagens:
Fco. Jonas Bandeira – Natural de Morada Nova (CE)

“Em 1942, eu plantei um terreno que eu tinha preparado lá, plantei 13 quilos e meio de caroço de algodão bem regadorinho, limpei, jeitei tudo com maior sacrifício, tanto trabalho, apanhei 6 quilos de algodão. Não houve inverno em 42. Aí eu disse assim: eu nunca mais eu planto no Ceará. Já tinha esse desejo e de pra isso, quando surgiu essa história do soldado da borracha eu digo é agora.”
José Pio de Lima – Natural de Limoeiro do Norte (CE)
1940 um grande inverno, aí veio 41 e 2 e 3
foi ano de pouca chuva.

Jean Pierre Chabloz foi um pintor e desenhista suíço, que foi arregimentado pelo governo Vargas para trabalhar na campanha da borracha. Ele fazia os cartazes que promoviam a Amazônia, que a mostravam como um paraíso, um lugar para fazer fortuna. Foi esse trabalho de propaganda, podemos dizer que “enganosa”, que convenceu milhares de nordestinos a deixar sua terra para vim trabalhar nos seringais da Amazônia. Esses nordestinos vinham recrutados para trabalhar nos seringais como “soldados”, pois a borracha produzida por eles iria garantir aos Aliados a vitória na guerra.



A campanha do governo Vargas era forte e sedutora, mas a realidade nos seringais era bem diferente daquela que os cartazes mostravam. As condições de viagem eram bastante desconfortáveis, vinham em caminhões lotados do Ceará ao Maranhão, daí para os porões de navios até chegarem ao Pará. Do porto de Belém, no Pará seguiam rumo aos seringais. Então, eles deparavam, com a pior etapa da viagem. A vida nos seringais era dura e solitária, as seringas eram muito distantes, o que dificultava uma produção elevada. O seringueiro já chegava endividado porque tinha que comprar do patrão ou seringalistas as ferramentas que necessitava para trabalhar e as dividas só aumentavam: comida, roupa, arma, remédio, etc.
Tudo era vendido a preços altíssimos dentro do “sistema de aviamento”, ou melhor, de endividamento, para que as dívidas se tornassem uma prisão para o seringueiro, algemas invisíveis para um exército de soldados enganados. Voltar para casa se tornou um sonho distante, pois segundo o seringueiro Raimundo Nonato de Lima, natural de Jaguaruana (CE), o contrato com a SEMTA esclarecia:
 “No contrato eu me lembro bem de um item: que tinha, que dizia: que ninguém podia abandonar o seringal com débito...O seringalista tinha aquela segurança né, segurança que o cara podia morrer devendo mas sair devendo não podia, que se tinha que morrer não tinha que pagar, pronto morreu acabou”
O SEMTA (Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia) era um órgão federal criado pelo governo e financiado pelo governo Norte- Americana. O SEMTA era responsável pela imigração para a Amazônia, fazia o recrutamento e fornecia aos recrutas o contrato de encaminhamento para ser assinado por eles. Os soldados escolhiam entre ir pros seringais ou lutar na guerra.
Os soldados recrutados pelo SEMTA vinham sozinhos, deixando para trás suas famílias, e de acordo com o contrato de encaminhamento podiam optar pela assistência que o SEMTA oferecia às famílias, o que muitos fizeram. Segundo Verônica Secreto:
“Muitas mulheres e filhos desses trabalhadores permaneceram nos seus lugares de origem ou nas hospedarias improvisadas, esperando o momento para empreender, também elas, viagem que as levaria ao encontro de seus maridos, ou aguardando o retorno destes ao termo de dois anos de ingresso no seringal.” [i] 
A urgência da guerra fez com que a ideia de povoamento do governo Vargas fosse substituída pelo de recrutamentos de homens sozinhos para produção da borracha necessária ao esforço de guerra. Embora existisse um contrato que pretendia evitar os abusos cometidos durante o 1º Boom da borracha, não existiu fiscalização efetiva que pudesse garantir aos soldados da borracha os direitos implícitos nesse contrato.
Os únicos fiscais foram os próprios seringueiros, suas mulheres e familiares. O próprio SEMTA que havia se responsabilizado por fornecer assistência dos familiares dos recrutas, suspendeu esse auxilio em junho de 1944. As famílias que estavam em alojamentos e hospedarias recebiam alimentação e assistência médica, porém de repente essas famílias ficaram desassistidas.
Uma série de cartas escritas pelas mulheres que viviam nos alojamentos, e que serviram de fonte para a historiadora Verônica Secreto, comprovam que a vida no alojamento era difícil, pois as famílias estavam sujeitas a restrições, proibições e a trabalhos pesados.
Diante de tantas injustiças essas mulheres escreveram para reclamar, mas não aos seus maridos e sim ao próprio Presidente Getúlio Vargas. Apresentando-se como esposas, mães, irmãs e até noivas dos soldados da borracha elas reclamavam seus direitos e exigiam reparações.
Soldados da Borracha – História e Memória – Tempo presente.
A guerra chegou ao fim. Os soldados não voltaram para casa, muitos morreram na floresta vítimas de doenças, animais ferozes e fomes e trabalho demasiado pesado. Flagelados, migrantes, enganados e cativos, o exército da selva foi abandonado pelo governo.
A guerra travada pelos soldados não terminou, os sobreviventes relegados ao esquecimento por parte do governo e destituído de seus direitos têm lutado para serem reconhecidos pelo que realmente foram e se consideraram: soldados.
Esses homens que nem se quer foram reconhecidos como heróis nacionais tiveram, segundo Maria Silva, “seus corpos esquadrinhados e mutilados seus desejos”, serviram a pátria a favor dos Aliados e, no entanto, constituem uma legião de esquecidos, ficaram pois à margem da história.
Muito do que tem se escrito sobre esses homens, pretende rememorar seus feitos, sua bravura, suas lutas e as injustiças que sofreram e dar visibilidade a esses sujeitos anônimos para grande maioria de brasileiros.
Vale ressaltar que a constituição Federal de 1988 garantiu a aposentadoria de dois salários mínimos ao “soldado da borracha” como beneficio pelos trabalhos prestados à pátria. Nem todos usufruem desse benefício devido à dificuldade em provar que serviu como soldado na Amazônia. Muitos morreram sem que o benefício houvesse sido aprovado e poucos que ainda estão vivos ainda lutam para recebê-lo.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
GOMES, Ângela de Castro "A construção do homem novo: o trabalhador brasileiro". In: Lúcia Lippi de Oliveira, Mônica Pimenta Velloso e Ângela de Castro Gomes. Estado Novo: Ideologia e poder. Rio de Janeiro, Zahar, 1982.
FIGUEIREDO, Aldrin Moura de. No tempo dos seringais: o cotidiano e a sociedade da borracha. São Paulo: Atual, 1997.
PRADO, Maria Lígia e CAPELATO, Maria Helena Rolim. “A borracha na economia brasileira da primeira república” In: Boris Fausto (Org.). História geral da civilização brasileira. São Paulo, 1977, Vol. VIII.
Fontes, Edilza. A Batalha da Borracha, a Imigração Nordestina e o Seringueiro: A relação história e natureza. In: NEVES, Fernando Arthur de Freitas e LIMA, Maria Roseane Pinto (Orgs.). Faces da História da Amazônia. Belém: Paka-Tatu, 2006.
SECRETO, Maria Verônica. Soldados da Borracha: Trabalhadores entre o sertão e a Amazônia no governo Vargas. Fundação Perseu Abramo, 2007.
Fontes, Edilza. A Batalha da Borracha. In: Contando a História do Pará, Volume II: Os conflitos e os grandes projetos na Amazônia contemporânea (Século XX), Belém – Organizadora Edilza Joana Oliveira Fontes. Belém: E.Motion, 2002. pp.47-69.
Secreto, Maria Verônica. Fúria epistolar: as cartas das mulheres dos soldados da borracha – uma interpretação sobre o significado da assistência às famílias. Revista Esboços. PPG História, UFSC, v.12, nº14, pp. 171-190.


[i] Secreto, Maria Verônica. Fúria epistolar: as cartas das mulheres dos soldados da borracha – uma interpretação sobre o significado da assistência às famílias. Revista Esboços. PPG História, UFSC, v.12, nº14, pp. 171-190.














[i] Garfield, Seth. A Amazônia no imaginário norte-americano em tempo de guerra. Revista Brasileira de História. São Paulo, v.29, nº57, p.19-65, 2009.